The first 200 lines.
Faça de mim o que quiser.
Venha comigo.
- Que é que eu digo ao Nino? - Que morri!
O SANGUE
A noite estava escura
E não tinha luar
Ouviu-se lá ao longe
O lobo a uivar
Vicente!
Ainda bem! A Rosa fugiu outra vez.
Levou o teu irmão.
- Rosa! - Nino!
Hoje ninguém tinha mão nela. Não sei o que lhe deu.
Estão sozinhos outra vez?
É por pouco tempo.
Só sei coisas de ti porque ele me conta tudo.
Quando é que volta o teu pai?
Não sei. É o tratamento.
Está pior?
Rosa, que foi?
Quem é que te fez mal?
Já te disse tantas vezes para não vires brincar para aqui sozinha.
Depois as professoras ralham comigo...
Olha para ti...
Às vezes assustas-me.
Lembras-te?
Nino, vamos para casa. O pai está à espera.
O pai?
Hoje ninguém acordou...
Queimaram-se.
Não há pão.
O Zé não abriu hoje.
O pai perdeu a camioneta.
Foi o Vicente que te disse?
Não o senti sair.
Dou sempre por si...
Este miúdo está sempre constipado.
Não apanhas sol,
e no Inverno é sempre a mesma coisa.
Não gosto de sol.
Fico inchado.
Mas tem de ser.
Nasceste antes de tempo.
Eras mais pequenino do que os outros.
Com 2 quilos e 300 gramas!
Não exageres.
Apostamos? Está no meu álbum.
Quanto é que me dás se não for verdade?
Vá, segura.
Éh! Não vale!
Vick, Vick, Vick...
O seu remédio está na mesa.
Sempre cheio de feridas.
Pai...
Pai, então, está com medo?
Já perdeu.
2 quilos e 300 gramas, não se lembra?
Mais salsichas?
Está no álbum.
"Nascido no dia 11 de Agosto,"
"às 5 para a meia-noite,"
"com 2 quilos e 300 gramas". - Deixa-me! Chega de brincadeiras.
A sério. Vai perder...
Faça-lhe a vontade.
2 quilos e 300, está bem!?
Pai...
Vicente...
Estás a crescer depressa demais.
Onde é que o escondeste? Não vês que não tenho tempo?
Como é que o arranjou?
Sabes bem que preciso dele.
- Imagino... - Não imaginas nada!
- Onde é que vai? - A lado nenhum.
Tão teimoso...
Nunca se esquece de nada este miúdo.
2 quilos e 300...
É capaz.
A cor dos olhos, caras, nomes, datas...
- Escuro! - Não tens dono?
- Escuro! - Damos-lhe comida.
Aparece aí.
Escuro, anda cá, toma.
Deixa-te estar, não venhas para o frio.
Quanto tempo é que vai demorar o tratamento?
É o último. Não sei.
É sempre o último.
É muito dinheiro.
Estas doenças são assim.
Não lhe pagam tanto lá no sindicato.
Que fizeste à carta? Leste-a, ao menos?
Só duas linhas.
Não teve coragem para a acabar?
Ainda não és órfão.
Deixa...
Fica com ele.
Não tenhas pena de mim, nem de ti.
- Caíste? - Não é nada.
Senhor doutor
Dê-me comprimidos para dormir...
Flores de todas as cores...
Passear contigo no jardim
Amar é tão bom
Onde é que te meteste? Sabes que horas são?
E a mão pela mão
E o pé pelo pé
O sócio nem te quer ver...
Estiveram aí uns velhos à tua procura.
Disseram que eram teus amigos.
Eu não tenho amigos.
- Estiveram para aí a falar... - Podes dar meia volta.
Ó sócio, o material não está em condições. Os macacos não funcionam...
E querias que eu levasse 5000 cassetes ás costas!?
Não reparaste nas encomendas?
Não vês que é quase Natal?
300 pesetas...
Toma, é Natal.
Tem dores, agora?
Qual é o hospital?
Em Lisboa?
Quem é que trata de si?
Pensou em tudo muito bem, não foi?
Nunca acreditei nessa doença.
Sempre a fingir que está muito mal.
Toda a gente me pergunta se está melhor, quando é que volta...
Estou farto de inventar coisas por si.
Vá à taberna, sente-se lá, vai ver.
Já ninguém acredita, ninguém.
Não vê que o menino está assustado?
Sabe o que lhe dizem lá na escola?
E agora este dinheiro todo.
Donde é que vem?
Desta vez não vai.
Salva-me.
Só confio em ti.
Ainda nos perdemos. Não vejo nada.
É a noite que é má.
Daqui só com o luar vemos o rio.
Como é que sabes?
Não sei, falei por falar.
Vicente...
Não vamos encontrar a vala. É melhor parar.
Não, aqui não.
Vês? Eu bem te disse.
Não lhe toques!
Está frio.
- O fecho... - Nunca fechou bem...
Vicente.
Tem cuidado.
Deixa-o, já te disse.
Não o deixes ir assim.
Clara, que foi?
- Temos de deixar tudo como estava. - Não tenhas medo.
- Partimos uma jarra, ali. - Não faz mal.
Não chores.
Quase não o conhecias.
Não é por ele.
Se nos vêem assim, ainda vão pensar que...
Não digas nada!
Olha, quase dia.
Quando passar a nuvem fecha os olhos.
Agora olha para o sol.
- Que é que tem? - Já não é o mesmo.
O pai viu o álbum?
Fui lá pô-lo ontem. Ganhei, claro.
Que é que disseste na escola?
Nada.
Disseste que o pai se foi embora?
Disse.
Se fechares os olhos assim...
E que mais?
Oh, tudo.
Vocês fizeram tanto barulho ontem.
Nino, o pai não vai voltar.
Não vai voltar como?
Há coisas que é melhor não dizer a ninguém.
Podemos fazer o que quisermos nós os dois.
Mas ele ia tratar-se...
Fica comigo hoje. Faltas.
Vamos à feira.
Nunca mais o vemos?
Porra, porra.
Nino, não tens trabalhos de casa?
Estás triste?
Lá no Tahiti Vive a Ana Maria
Cala-te!
Fica já ali
Na Póvoa da Iria
Aritmética?
Sou bom em contas.
Tens problemas?
Olha, ajudo-te a fazer as contas e tu ajudas-me a arrumar esta tralha toda.
Pronto. À borla. Super máquina de calcular espanhola.
Multiplicar
E dividir
Somar E subtrair
Dá-me prazer Cantar...
Que estás a escrever?
Nada. Uma carta.
Para quem?
Para nós.
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