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AS OVELHAS DETETIVES
Querida Rebecca…
sei que tens muitas perguntas.
Eu também.
Afinal, a vida é um mistério.
Mas se houvesse uma resposta para todos os grandes enigmas do universo,
um segredo para a felicidade,
eu propunha que fosse apenas isto…
Ovelhas.
Falo a sério.
São mesmo as ovelhas.
Estou a ir.
Na última carta, perguntavas-me se alguma das minhas ovelhas era especial.
Bem, são todas especiais. Foi por isso que dei um nome a cada uma.
Por exemplo,
há dois carneiros gémeos briguentos a que chamei Ronnie e Reggie.
E temos o altivo e digníssimo Sir Ritchfield.
A Nuvem, a mais fofa.
Ela arma-se em diva.
A Zora, a mais curiosa.
O Mopple, o mais paciente.
E o Olhos de Lã…
Bem, porque não me ocorreu um nome melhor.
E pronto, sei que disse que são todas especiais,
mas tenho de admitir que há duas ainda mais especiais.
Há o Sebastian,
o meu maior carneiro,
e, tal como eu, é um solitário.
De vez em quando desaparece.
E, mais tarde ou mais cedo, volta a aparecer.
E, finalmente, a Lily.
A mais inteligente.
Aquela que parece adivinhar sempre o que a minha cabeça pensa
e o que o meu coração sente.
Mais do que as outras, ela transmite-me uma paz que só os pastores conhecem.
Uma paz que sentimos
ao cuidar das criaturas mais meigas do mundo.
Todos os dias começam com os seus cuidados de saúde.
RAÇÃO PARA OVELHAS
Alimento-as bem,
trato da tosquia.
Esforço-me bastante para entretê-las.
E nunca me esqueço de lhes dar a medicação, que diriam que gostam,
se pudessem falar.
São horas do remédio, amigo. Toma lá.
E quando as minhas tarefas acabam e o Sol começa a descer no céu,
escolho um livro para lhes ler em voz alta.
Histórias de detetives, mistérios, policiais. Os meus favoritos.
"Sei quando o Rodney Hollingshead foi morto
"e sei quem foi o verdadeiro assassino."
Gosto de fingir que elas estão a acompanhar a história.
Mas sei, lá no fundo, que por mais especiais que sejam, continuam a ser…
ovelhas.
Não, acabou.
Vá lá, tudo para casa.
Leio o fim amanhã.
Porque é que ele parou ali?
Estava quase a dizer quem era o assassino.
Isto é tortura. Foi a criada, não foi?
Claro que foi a criada.
Não, não, não! Foi o jardineiro.
Sempre a cortar a relva mas nunca comia nenhuma?
Sim. É suspeito.
Estão a gozar? Foi o médico, de certeza.
Nem pensar. Foi a tia sinistra.
A tia sinistra já foi há três livros, crânio.
Não podemos ser filhos dos mesmos pais!
Lá vamos nós.
Pois.
Outra vez nisto.
Estão todos enganados.
Eu já descobri há dois capítulos.
É a criada, não é?
Nada disso.
O sobrinho, o Bertie Hollingshead.
Lily, o detetive não descobriu já que as provas contra o Bertie Hollingshead
tinham sido forjadas pelo verdadeiro assassino?
Exatamente.
Não estão a ver?
Para escapar à condenação, forjou ele próprio as provas.
O Bertie Hollingshead é o verdadeiro assassino.
Para que é que foi isso?
O George vai acabar a história amanhã. Vão ver.
Eu ainda acho que foi a criada.
"O Bertie conhecia bem a lei
"que dizia que uma pessoa não pode ser condenada duas vezes pelo mesmo crime.
"Assim, para escapar à condenação, forjou ele próprio as provas.
"O verdadeiro assassino foi Bertie Hollingshead."
A maioria das minhas ovelhas parece que passa o dia inteiro a comer
ou a pensar em comida.
Mas tenho três cordeiros traquinas com energia para dar e vender.
Criaturas alegres e brincalhonas nascidas na primavera.
Na verdade, quase todos os cordeiros nascem na primavera.
E depois há o meu cordeirinho que nasceu no inverno.
Olá.
- Sou a Daisy. - Eu sou o Oliver.
- E eu sou a Pickles. - Como te chamas?
Não tenho nome.
Queres vir brincar?
Não! Xô!
Não brinquem com o cordeiro do inverno.
O lugar dele não é neste rebanho.
Por razões que só fazem sentido para uma ovelha,
o rebanho rejeita muitas vezes um cordeiro nascido no inverno.
Está tudo bem.
Só porque um cordeiro do inverno é diferente.
Isso mesmo. Boa.
Tenho uma pergunta.
Porque é que o George trata sempre tão bem aquele cordeiro?
O George não é uma ovelha.
Nunca lhe falaram dos cordeiros do inverno.
E só mais uma coisa. Se aceitares o meu convite,
tens de saber que vivo perto de uma cidade chamada Denbrook.
Tem as suas personagens características.
Por exemplo…
Bom dia, Caleb.
O Caleb, outro pastor.
Bom dia, minhas senhoras.
Não gosto dele.
O Ham, o talhante.
Não gosto nada dele.
A Beth, a dona da hospedaria.
Não gosta de mim.
Apetece-me esganar aquele homem.
O Tim, o polícia.
Um idiota.
E o Reverendo Hillcoate, que se considera um pastor de homens.
Temos uma relação complicada.
E agora a leitura de hoje. A Parábola da Ovelha Perdida.
George, vem juntar-se a nós?
Todos são bem-vindos na casa do Senhor.
Até carniceiros?
Não venho juntar-me a vocês.
Vim só saldar a dívida.
O velho George.
O velho George.
Mas chega de falar das pessoas.
Quero que conheças o meu rebanho.
Está tudo ansioso para te ver.
E eu também.
Por favor, vem depressa.
Com amor, George.
Nuvem?
Tenho uma pergunta.
Os dentes-de-leão fazem-me as pestanas bonitas como as tuas?
Não, não fazem nada às pestanas.
Mas para a lã são ótimos.
Vê só o Olhos de Lã.
Só come dentes-de-leão.
É assim que isto se chama? Certo.
Devíamos guardar alguns para o Sebastian. Está desaparecido há dias.
E daí? Desde que o George o trouxe sei lá de onde,
passa a vida a fugir para a cidade.
Ele que passe fome.
Lá porque não se preocupa connosco, não temos de fazer o mesmo com ele.
O Sebastian faz parte do rebanho.
Olhem! É o Caleb!
Cãezinhos!
Cãezinhos, cãezinhos, cãezinhos.
Caleb! Estou aqui!
Adoro sempre o perfume dele.
São as camisolas de lã.
Estão tão bem tingidas.
- Posso entrar? - Vai-te embora.
Vou entrar.
É tão bonita e novinha a brilhar.
Estás a pensar no mesmo que eu?
- 'Bora marrar! - 'Bora marrar os dois!
Reggie! Ronnie!
Falámos sobre isto. Não se marra nas coisas, a não ser…?
A não ser que haja uma boa causa para marrar.
Isso mesmo.
É a terceira visita do Caleb este mês.
Só podem estar a falar de uma coisa ali dentro.
Combinar rebanhos.
- Combinar rebanhos? - Ovelhas novas.
- Pastos novos! - Cãezinhos?
Estou a pensar nisso!
Dei-te uma hipótese e mentiste-me, Caleb!
E não voltes!
Cá para mim, ainda não vamos combinar rebanhos.
Estava tão feliz.
E agora estou triste e zangada.
Quero esquecer que isto aconteceu!
Tens razão. É uma desilusão.
Então, pessoal?
Vamos optar por esquecer esta visita do Caleb quando eu contar até três.
Um… dois…
Então e o Mopple? Ele não consegue esquecer.
Porquê?
Pobre Mopple.
Nasceu com uma terrível enfermidade.
Ao contrário de nós, não pode optar por esquecer as coisas.
Pois é.
Mopple, quando nos esquecermos, não nos lembres que isto aconteceu.
Não querem mesmo? Não foi assim tão mau.
Mas também não foi muito bom. Nem vale a pena.
Estão prontos?
Um…
Dois…
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