As primeiras 200 linhas.
Alô?
Alô, estou falando com o Sr. Philip Connarty?
A pronúncia é "Connarthy".
Desculpe. Estou ligando em nome da Srta. Kelly Royce.
Não conheço essa pessoa.
Certo, mas se trata da mãe da Srta. Royce, Carol Royce.
Também não conheço essa pessoa.
O nome de solteira dela era Hartman. Carol Hartman.
Sim, conheço esse nome.
Eu conhecia ela. Desculpa, por que está ligando?
Infelizmente, ela faleceu quarta-feira passada.
A filha dela queria que soubesse.
Alô?
- Diga que sinto muito... - Claro.
Obrigado por me avisar.
E é claro que haverá um funeral. Em Londres. Na Inglaterra.
Na Inglaterra.
Não... Eu não posso.
Não, eu imaginava.
Não liguei por causa disso. Trabalho em uma empresa chamada Eulogy.
Eulogy, certo.
Estamos organizando um velório imersivo com a família.
Um velório imersivo.
Contatamos pessoas dos documentos antigos da mãe, e o senhor apareceu.
Tem sido desafiador localizar conhecidos da juventude da Carol.
Significaria muito para a família se contribuísse com uma lembrança.
- Faz muito tempo, e não posso... - Não precisa escrever nada.
O sistema seleciona as lembranças e as envia para o velório.
- Quer participar? - Não tenho certeza.
É totalmente voluntário.
Se for mais fácil, podemos enviar o kit para que decida.
O kit?
CURADORIA DE LEMBRANÇA
Olá?
Oi?
Olá?
Não precisa falar no aparelho. Sei que é estranho dizer isso.
Desculpa.
Preciso fazer um discurso de abertura.
- Vai nessa. - Certo.
Hoje, celebramos a vida de Carol Royce.
Como guia, devo ajudá-lo a relembrar, reviver
e guardar os melhores momentos dela.
Dá pra pular a introdução? Só diz o que preciso fazer.
Está bem...
Primeiro, vamos fazer a calibração.
Basta colocar o disco-guia, que sou eu, na sua têmpora.
- Colocar do lado da minha... Tipo... - Sim.
Isso mesmo.
Agora só precisa pensar em Carol.
Não faço isso há muito tempo.
Certo, entendido.
Mas tente se lembrar dela agora.
Feche seus olhos e imagine o rosto dela.
Certo, não estou captando nada.
Bom...
Desculpa, mas...
Tente se concentrar.
Estou tentando, mas é difícil...
Vê-la com clareza?
Isso.
No começo, ter uma lembrança
é como tentar pegar um rio com as mãos.
- Caramba - Desculpe, não são as minhas palavras.
É o que está no panfleto.
Lembranças palpáveis ajudam. Fotos, músicas, recordações, coisas assim.
Não consegue umas fotos?
Não posso fornecer materiais externos. Eles se mesclariam às suas lembranças.
Funciona assim para manter as lembranças precisas.
Tá bom.
Mas se me der acesso à sua nuvem de fotos, posso buscar imagens de Carol.
Celulares e nuvens não existiam quando eu conheci ela.
Certo, mas você tem fotos físicas?
- Está aí? - Sim. Achou algo?
- Algumas. - Algumas?
Beleza, três.
- Posso processar até 1.500 fotos. - E eu trouxe três.
Recomendam um mínimo de seis imagens diferentes.
- Podemos continuar? - É claro.
- E agora? - Coloque-me de volta.
Olhe para a primeira imagem que gostaria de importar.
- Literalmente, é só olhar? - Sim.
Certo, a primeira...
JULHO DE 1989
...é esta.
Certo. O que estamos vendo?
Foi quando conheci Carol, no Brooklyn. Churrasco no terraço da Coop.
- A Coop? - É, era uma ocupação.
Era tipo uma cooperativa, então a chamavam de Coop, daí o nome.
Éramos jovens,
mas nos chamávamos de artistas, músicos, desajustados.
Acredite ou não, esse rapaz sou eu, e essa é Carol.
A mulher de costas para nós?
Isso.
Queremos uma lembrança clara dela.
Isto é o que tenho.
Podemos aprimorar o momento entrando na imagem.
Vamos entrar?
- Como assim, "entrar"? - É mais fácil se eu mostrar.
Carambolas!
Oi. Desculpe.
Sou eu.
- Sua guia. - Cacete.
Desculpe, não quis assustá-lo.
Não, é que... É que isso é...
Pois é. Espere um pouco para se situar.
Esta é a foto que usamos pra sua memória.
Faltam certas partes, mas detalhes vão surgir se sua memória preenchê-los.
A foto foi tirada antes de você e Carol ficarem juntos?
Eu nunca disse que ficamos juntos.
Qual é? Veja como está olhando para ela.
Aposto que ela estava olhando pra você do mesmo jeito.
Eu fiz ela rir.
Ela era nova na casa.
Eu não a conhecia, mas queria.
E eu a fiz rir,
e ela...
- Caramba! - Tudo bem.
Não, não consigo ver o rosto dela.
Você vai ver. Tente se concentrar no que consegue se lembrar desse momento.
Está bem.
Ela tinha acabado de se mudar.
Ela era muito fechada, estudava violoncelo.
Ela ficava praticando no quarto.
Acho que ela ainda tinha um namorado na cidade dela.
Noivo.
Como?
Há um anel de noivado no dedo dela. Viu?
O olho não percebe esse nível de detalhe na foto,
mas há o suficiente pro algoritmo tornar visível.
Não sabia que ela estava noiva.
Talvez tenha escolhido não ver, ou não lembrar.
Ela nunca disse que era tão sério.
Ela pode ter minimizado.
- Pra não espantar você. - Aham.
Vamos marcar este momento para um possível envio para o velório?
A família dela não vai gostar de ver uma lembrança dela
flertando comigo enquanto estava noiva de outro.
Tem razão.
Mas seria uma representação honesta do caráter dela.
Vamos continuar?
Minha nossa!
Sim. Não se preocupe.
Essas transições vão ficar menos desorientadoras.
Vamos para a próxima foto?
Vamos.
Parece outra festa.
Sim, não me lembro o motivo. Qualquer desculpa servia, sabe?
Era a Coop.
Certo. Há vários rostos. Por que não me diz quem é quem?
Está bem.
Essa é Emma, a de cabelo loiro.
E o cara com o bongô é Jamo.
E a garota deitada ali atrás é Amanda.
Teria gostado dela. Ela era britânica, como você.
Mas Carol não está aqui.
Nem você.
Não, não estamos na foto, mas estávamos na festa.
Parece que tinha um disco tocando. "Fools Gold", de...
The Stone Roses.
Era de Amanda.
Música ajuda a refrescar a memória.
Ali.
Sim.
Isso.
Estávamos ali.
No fim do corredor.
Foi a primeira vez que nós conversamos pra valer.
Eu estava tão nervoso.
Meu cérebro gritava nos meus ouvidos: "Não faz merda, cara."
Mas eu não fiz merda.
Falar com ela era fácil.
Ela era engraçada.
Lembra sobre o que conversaram?
Não, mas...
ela era diferente de todos que eu conhecia.
Ou sonhava em conhecer.
Foi nossa primeira noite juntos.
Também não posso usar isto, posso?
"Transei com a falecida. Que ela descanse em paz."
Melhor não.
Vamos tentar a última foto.
Eu de novo.
O que eu estava vestindo?
Não vi ninguém batendo a foto. Não sei quem foi.
- E nada de Carol. - Não, mas eu estava ouvindo.
Ouvindo ela.
Ela estava no quarto dela.
No violoncelo, praticando.
Perdida nele.
Ela não sabia que eu estava olhando.
- Ela está ali, mas não consigo vê-la. - Lembra o que ela estava tocando?
Algo que ela tocava sem parar. Era uma composição linda.
Se conseguir lembrar o nome, eu posso procurar.
Ouvir pode preencher a lembrança.
Não, não vai estar disponível.
Ela mesma quem compôs.
Ela compôs essa obra?
Sim. Ela era boa.
Ela era boa.
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