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Risa!
É o último dia. Podemos chegar a tempo pra variar?
Risa!
Mãe.
O quê? Vamos.
Vem, estamos atrasadas.
Está tudo bem aí? Faz frio?
Você fica doente?
Até o fim do ano, vamos terminar a parte
em que teria morado, toda a ampliação.
A mamãe não veio hoje, estava ocupada, mas amanhã ela vem.
É como se você tivesse abençoado,
porque agora só falta terminar a parte da frente e nada mais.
O que vai fazer nas férias, Risa?
Kuro precisa de um lar até a volta.
- Quer cuidar dele? - Não sei.
Pensa bem. Imagina só passar o verão numa caixa?
- Ele piscou pra mim. - Viu? Eu sabia que vocês se dariam bem.
Santi, o celular.
Piscou pra mim, não foi?
A sua professora é vidente? Não tinha hora melhor pra isso.
Você que se atrasou.
Qual o problema, mãe? Eu que vou cuidar.
Até parece.
Sei que esse rato vai sobrar pra mim.
Risa? O que foi?
Respira. Tudo bem?
Tudo.
- Tem certeza? - Tenho.
Isso vem acontecendo muito.
Vamos dar uma passada no postinho.
Escutam alguma coisa?
Quem?
O povo naquele telefone.
Claro que não.
Então por que ficam ali?
Não tenho ideia.
É meio estranho, né?
Estranho? Louco, você quer dizer.
Sara.
Vamos.
São 10 anos desde o trágico incêndio que atingiu a nossa cidade.
É um dia muito doloroso
para o povo da Tierra del Fuego.
Um breve memorial será realizado hoje
para relembrar as 144 pessoas que perderam as suas vidas.
Muitas vidas perdidas e muitas outras que ficaram destroçadas após o incêndio.
Muitos, vale lembrar, morreram tentando salvar outras pessoas.
Sem dúvida, o evento marcou…
Não consigo mais pagar o aluguel,
e vamos ser despejadas.
Tenho que deixar a casa antes do fim do verão.
Risa não sabe.
E me ocorreu que, com as férias escolares…
Nem falei ainda. Pelo menos me escuta.
- Não é a minha praia. - Só preciso que fique de olho nela.
Temos até uma TV.
- A cabo? - Sim, a cabo.
Sempre tem futebol passando. É tipo um jogo eterno.
Aqui está o meu número.
Qualquer coisa, pode me ligar.
Não fale do Rodrigo, por favor.
Ela é obcecada pelo pai.
Risa!
Não falei que ia chamar um vizinho pra te olhar?
- Ele? - Ele. Esteban.
Vai ser divertido.
Podem, sei lá, cozinhar alguma coisa.
Cozinhar?
Não. Posso deixar comida pronta. Não tem problema.
- E o hotel? - Não posso cuidar de você no trabalho.
- Não preciso de babá. - Sei.
Olha os modos! Fala com o Esteban.
Oi.
Tudo bom?
Vai.
Muito obrigada.
- Saio de casa às 8h. - Cedo assim?
É, mas pode vir quando acordar.
- Tá. - Vou deixar a porta aberta.
Obrigada.
Ele vai ficar aqui.
Até amanhã, pai.
Aonde vai? Não tem escola.
Ah, é!
Perfeito!
Tem cereal. Já o Esteban chega.
Por favor, Risa, se comporta, hein?
Cereal?
Esteban?
O que vamos fazer hoje?
Boa ideia, Kuro.
Já volto.
Vou levar o Kuro ao parque.
- Kuro? Que isso? - O hamster da escola.
- Por que não brincam no quarto? - É trabalho da escola.
- É isso que costumam ver? - Kuro gosta.
Esse trabalho aí é importante?
Na escola, nunca se sabe.
Acho que ir ao parque não seja uma má ideia.
Um pouco de natureza.
Estamos bem melhor.
As crianças foram bem na escola esse ano.
Notas excelentes.
Que idiotice!
Tchau, pai.
Arranjei um emprego novo.
Tenho que inventar qualquer bobagem pra esquentar as coisas.
Não. Eu que falo.
Não vai falar?
E esse bicho?
Kuro. Quer pegar?
Hoje um cara me pediu pra falar o que eu faria
com a linguiça dele.
Sentei com os meus pais e contei tudo.
Falei de você.
Acho que, de certa forma, puderam te conhecer.
Vamos.
Vamos dar privacidade às pessoas.
O telefone é seu?
Quando o fogo começou, tivemos que fugir.
Quando voltamos, tudo tinha virado cinza.
Menos a cabine.
E o povo começou a vir.
Mas não funciona.
A cabine ajuda a sarar. Nem que seja um pouco.
Não soube o que dizer.
Pro meu pai.
Nunca é tarde demais. Já vai ver.
Credo!
Por que me acordou assim?
Apareça quando quiser.
- Não estava no parque. - Você foi lá?
Você não estava lá.
Não deve ter me visto.
- Oi, o que estão fazendo? - Vendo televisão.
E fomos ao parque.
- Onde prenderam a quadrilha? - No outro.
Estou morta.
Obrigada.
É. Obrigada, Esteban.
E a jaqueta?
Não posso usar?
Pode, mas está calor.
Vai contar o que fizeram?
Fui ao telefone.
Não sei nada dele.
- Esse assunto de novo? - Por que nunca me fala nada?
Fala algo. Qualquer coisa.
Ele dançava muito bem.
Como você.
Gostava dos Babasónicos.
Baba, o quê?
Babasónicos. Uma banda.
O que mais?
Deu o seu nome.
- Eu sabia. - Não sei como.
Ele está sempre sorrindo na foto.
Você é diferente.
Sou diferente?
O que tem de errado comigo?
- O que é isso? - Ele vai ficar doente.
Melhorou?
Sim.
E o Esteban?
Ele é legal.
Quero que se comporte.
Ouviu isso?
Alô?
Antonio.
- Quem? - Antonio, está me ouvindo?
É você?
Não conheço nenhum Antonio.
Quem é?
Risa.
Tem muita gente aqui. Eu sou a Greta.
Isso é trote?
Estamos ligando faz tempo.
Nunca. Ninguém, nada.
Está de noite aqui.
Onde vocês estão?
Estamos aqui.
É como estar vivo,
mas ao contrário.
Tem um Rodrigo aí?
Fala mais alto.
Rodrigo Rivera, o meu pai.
Ele é alto. E tem bigode.
Tem que esperar a vez dele.
- Como? - Ainda estamos organizando a fila.
A vez dele vai demorar?
Não sei. Nem todos aqui querem esperar na fila.
Mas vamos procurar.
Precisamos de ajuda, Risa.
- Pra resolver as coisas do seu lado. - Como o quê?
Temos pedidos. Vários.
Tá.
Primeiro, Antonio.
Ele era professor de xadrez e está empacado.
Você precisa ajudar.
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