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UMA SÉRIE DOCUMENTAL NETFLIX
Olho e penso: "Nada faz sentido."
- Isto é assustador. - Eu não matei ninguém.
É a responsável pela casa.
Acho que sabe do Sr. Montoya.
Acho que ele está naquele quintal.
Está no quintal, ou foi descartado de outra forma.
Não por mim.
A HISTÓRIA DE SACRAMENTO: PRONTA PARA OS ANOS 80!
Se pudesse escolher, viveria onde a vida tivesse algo para oferecer.
Perto do trabalho, da escola e onde houvesse casas a preços razoáveis.
Sacramento foi votado como um dos dois melhores sítios do país para se viver.
O que não surpreende o nosso milhão de habitantes.
As pessoas perguntam-se , o que se passa com este gigante adormecido,
a capital com dois rios da sétima maior economia do mundo?
BEM-VINDO A SACRAMENTO
A CAPITAL DA NATUREZA-PARA-O-PRATO
O final dos anos 80, em Sacramento,
foi uma época de crescimento.
Compravam-se casas e surgiam desenvolvimentos novos,
mas este bairro continua mais ou menos na mesma.
Há imensos sem-abrigo nesta rua.
É onde são os abrigos.
Os sem-abrigo são uma grave tragédia humana,
durante todo o ano, e o esforço para os ajudar continua.
Um em cada cinco que pede ajuda vê-a recusada.
Na altura, o Departamento de Saúde Mental
criou uma força-tarefa para os sem-abrigo.
A Volunteers of America fazia parte dessa força-tarefa.
O nosso objetivo era tirá-los das ruas,
pô-los em contacto com os serviços de saúde mental
e dar-lhes um sítio para viverem.
Sofrem de paranoia,
e isso impede-os de ir para os abrigos
e de conseguirem ter condições de vida decentes.
Reparei nele logo no primeiro dia.
Tenho isso gravado em vídeo.
O seu nome de nascimento era Alvaro Gonzales Montoya.
As pessoas chamavam-lhe Bert.
Tenho um filho com doença mental
e ele tinha muitos delírios e muitos medos.
E reconheci isso no Bert imediatamente.
As vozes que falam consigo desapareceram com o medicamento?
Não, não desapareceram.
Não desapareceram.
O Bert nasceu na Costa Rica.
E veio com a família, quando tinha cerca de 16 anos,
para um dos estados do sul.
Começou a ter esquizofrenia aos 16 anos.
Acha que, se tomasse remédios durante umas semanas, desapareciam?
O remédio enjoa-me muito.
O remédio enjoa-o?
Os pais dele tentaram ajudá-lo
e puseram-no numa instituição psiquiátrica
onde lhe foi feita muita terapia de choque.
Quando saiu, saiu de casa.
Não contou à família.
Não sei como chegou a Sacramento.
Mas acabou na desintoxicação.
Não era alcoólico,
mas gostavam que lá ficasse.
E perguntei porque não estava num sítio para doentes mentais.
E disseram que era porque alguns desses sítios não eram bons
e podia não ser bem tratado.
Como é viver na desintoxicação em comparação com uma casa de acolhimento?
É melhor numa casa de acolhimento.
É melhor uma casa de acolhimento?
Está bem.
Se lhe arranjássemos uma boa casa de acolhimento,
preferia ir para lá?
Sim.
Vamos tentar fazer isso.
Mas houve um sítio que foi muito bem recomendado.
Muito bem recomendado porque diziam que era gerido por uma mulher excelente
que cuidava muito bem dos seus clientes.
A Dorothea Puente era amada pela comunidade e pelos políticos locais
porque doava para as suas campanhas e assim.
Ela doava a instituições de caridade e dava-lhes sacos de roupa.
Acolhia imensa gente.
Tratava bem os vizinhos.
E todas as quartas ou quintas era dia de burrito.
Ela dava comida grátis à comunidade.
Quando alguém se mudava para a casa dela,
ficavam no andar de baixo porque ela vivia no de cima.
Eram pessoas a que alguns chamariam de pessoas-sombra da nossa sociedade.
Alguns dos hóspedes que ela acolhia eram alcoólicos.
Alguns tinham problemas mentais.
Tinham pouca relação com as famílias.
Usavam os cheques da SS, ou outro dinheiro que tivessem,
para pagar a renda.
As refeições eram oferecidas como parte desse pagamento.
Em alguns destes casos,
ela tornou-se a pessoa que podia assinar os cheques
e depositá-los no banco, coisa que ela fazia.
Fomos a casa da Dorothea Puente para ver se serviria para o Bert.
Ela parecia muito querida.
Tinha uma caixa de gatinhos.
Tinha biberões de leite que lhes dava.
E disse: "Desculpem, tenho aqui os gatinhos."
Impressionou-nos muito.
Pensámos: "É mesmo simpática. Tem uma caixa de gatinhos."
Quando descemos para ver o quarto,
encontrei uma pessoa que conhecia.
Chamava-se John Sharp.
Ele disse que havia muitas vantagens em viver lá.
"Pode ser só um quarto, mas ter um sítio agradável
e boa comida é muito bom para nós."
Fiquei impressionada.
Achei que era um bom sítio
e disse-lho, e ela respondeu-me:
"Sou independente financeiramente,
só tenho aqui estas pessoas porque gosto de as ajudar."
Para viver em casa da Dorothea,
o Bert ia receber cheques da Segurança Social,
para pagar a casa e a comida.
Não tínhamos contacto com a família dele.
Por isso, ela disse: "Eu serei sua curadora."
Voltei à desintoxicação e eles deixaram-no tentar.
No início,
o Bert parecia estar a prosperar ao cuidado da Dorothea.
E fiquei muito contente
de o ver desenvolver amizades na casa,
a ter a sua própria cama, a sua própria cadeira, a sua própria TV…
Era bom ter uma casa decente.
Gostas de viver onde estás agora?
Sim, gosto.
Eu queria acompanhar o que ele andava a fazer.
Por isso, ligava à Dorothea para saber como ele estava.
Uns meses depois,
ela disse-me que ele não estava.
Que estava no México com o irmão dela.
Tinha havido uma fiesta.
Ouvi aquilo e pensei:
"Isso não parece do Bert."
Havia algo de muito errado naquilo.
Ela disse: "Ele vai voltar, talvez lá para sexta-feira."
Quando liguei: "Não, não está. Volta para a semana.
Não se preocupe."
E eu disse: "Não, o que eu vou fazer
é ligar à polícia na segunda-feira
e dizer que há uma pessoa desaparecida."
Na segunda de manhã,
cheguei ao meu escritório
e recebi logo uma chamada.
Atendi
e era um homem que disse chamar-se Don Anthony
e que o Bert já não estava na casa.
Que tinha voltado do México
e que a família o tinha ido buscar.
Não acreditei.
Sabia onde podia encontrar o John Sharp, que vivia lá.
Perguntei: "John, o que se passa com o Bert?"
E ele respondeu: "Já não está lá."
Perguntei se ele também tinha ido ao México.
E ele disse que nenhum deles tinha lá ido.
E eu perguntei:
"Então, fala-me do sítio onde vivem, passa-se alguma coisa de errado lá?"
E ele respondeu que sim.
"Ela tem cavado muitos buracos."
Quando a vemos pensamos: "Podia ser a minha avó.
Ou a velhota da porta ao lado."
As aparências iludem
e ela iludia muito bem.
A Dorothea Puente nasceu Dorothea Gray em Redlands, Califórnia, em 1929.
Teve uma infância difícil
e ambos os pais morreram relativamente cedo, quando ela era nova.
Cometeu os primeiros crimes no sul da Califórnia.
Se bem me lembro, o seu primeiro registo no sistema é de 1948.
Foi condenada por falsificação, passou um cheque falso.
Nos anos 50,
trabalhou como prostituta em Sacramento.
E, uns anos depois, tornou-se uma madame.
Foi detida e processada por ser prostituta e madame
e esteve presa durante pouco tempo.
Em 1982, eu estava na Procuradoria-Geral de Sacramento
numa missão temporária.
A primeira vez que ouvi falar da Dorothea Puente
foi num caso que envolvia um senhor chamado Malcolm McKenzie.
ABERTO ATÉ ÀS 6 HORAS
Ele era um homem mais velho que a Puente engatou num bar.
Beberam dois copos juntos.
Ele disse-lhe que vivia ali perto e levou-a para casa.
Quando chegaram a casa dele,
ele começou a sentir-se esquisito e deitou-se.
Aí, deixou de se conseguir mexer. Disse que ficou paralisado,
mas que conseguia ver o que ela estava a fazer no seu apartamento.
Tinha-lhe sido dado algum tipo de estupefaciente,
mas conseguia vê-la a remexer nas coisas dele,
a roubar algumas moedas…
Foi ter com ele e tirou-lhe o anel do dedo
e saiu.
Quando foi à polícia,
várias horas depois, após recuperar os movimentos,
a Puente foi presa.
Nessa altura, ela fazia-se passar por médica
para enganar e aproveitar-se de várias idosas.
Às vezes, andava com uma mala de médico
para pensarem que era uma profissional de saúde.
Tinha um estetoscópio, um tensiómetro…
Não era médica, nem enfermeira.
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