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ESTE FILME BASEIA-SE EM ACONTECIMENTOS REAIS
ATÉ AO LIMITE
Sinceramente, não sei se isto interessará a alguém.
Porque não?
Porque as pessoas acham-nos loucos.
Vão pelo estereótipo fácil, o louco que quer atenção.
Mas não me identifico com isso.
Não sou louco. Nada disso.
Fui campeão mundial de BMX aos 20 anos.
Sempre gostei de desportos radicais.
Já fiz muitas loucuras, mas…
… considero-me uma pessoa…
… sensata.
Responsável.
Então?
Por onde começamos a história?
Pelo Chana.
Tudo começou com ele.
Não!
O Chana era energia e força pura.
Capaz de ir sozinho à Noruega.
- Porra! - Para saltar.
E de caminhar 2 km pela montanha com a tíbia partida.
Tenho a perna partida!
- Está bem? - Não.
Tenho a perna partida.
Preciso de ajuda.
- Chamamos um helicóptero? - O quê?
- O quê? - Helicóptero.
Helicóptero? Não. Helicóptero não.
Chamem uma ambulância.
Por favor. O helicóptero é caro.
Nada disso.
Ele era incrível. Era…
Foi ele que nos apresentou a todos.
De Madrid, o Darío, o Carlos e eu. De Barcelona, o Álvaro e o Santi.
Um dia, o Chana ligou-nos e disse: "Falei com os catalães.
Andam a testar wingsuits nos Pirenéus há meses.
Disse-lhes para virem mostrar-nos."
Era o meu aniversário e…
Era uma boa oportunidade para experimentar coisas novas.
- É tão fino. - É náilon, superleve.
Dispenso, Álvaro. Prefiro o bom e velho paraquedas.
É diferente. Isto torna a descida muito mais longa.
As asas insuflam e seguram-te.
- Certo. E como se abre? - É igual.
A única coisa é que o arnês está dentro.
Temos de experimentar, certo?
Chana, se tu podes ir, vamos todos.
- Vão adorar. - É por isso que estamos aqui.
- Sim? - Está bem.
Sim.
Carlitos.
Alvarito, aqui vou eu!
Vamos divertir-nos!
Porra!
Carlos!
Estamos a voar!
Carlitos, como estás?
Viva!
Porra!
Porra!
Incrível!
Boa!
Incrível!
- É viciante, não é? - É brutal!
Parabéns a você
Nesta data querida
Muitas felicidades
Muitos anos de vida
- Vá, pede um desejo. - Vá.
Boa, Carlitos!
Bom voo!
Se viras muito, entras em queda.
- Controlo a velocidade. - Não sabes a tua velocidade.
Olha para ele. Voa há um dia e já se acha um perito.
Que irritante.
Esperem, quero dizer uma coisa e não quero esquecer-me.
Carlitos, aos 35 anos começam as dúvidas existenciais.
Cuidado.
E quero dizer-te que, quando dizem
que os desportos radicais são para ricos,
eu falo sempre do Carlos.
Ele sempre viveu dia a dia a fazer o que lhe apetecia.
Como tu, pai.
Porra, tenho três restaurantes.
Não são de luxo, mas sou um empresário do caraças.
- O Armando herdou um tablao. - É da minha mãe.
O Darío vende livros de cozinha.
Filho da puta.
Mas o Carlos sempre viveu de escalar montanhas.
Quando o conheci há cinco anos, fiquei cheio de inveja.
- Porra. - Mas pensei:
"Veremos quanto tempo dura isto de ir com a mochilinha dele
à procura de patrocínios.
Até querer comprar uma casa ou ter de pagar uma hipoteca."
Estou feliz a alugar, Chana.
Vejam. "Feliz a alugar." És o meu herói.
Vais aos Himalaias escalar oito mil metros.
Ao Yosemite escalar o El Capitan.
À Gronelândia… Sempre com a tua mochilinha.
- E sem trabalhar a sério! - Vá lá!
Faço 35 anos, não 50.
- És o maior, Carlitos! - Mas o que quero dizer é, Carlos…
Continua assim, mano.
Nunca mudes.
E nunca sejas o funcionário do mês.
Que bonito.
- Está bem? - Ele é o maior.
Não. Digo-to porque vai chegar a altura em que a pressão vai apertar.
Isso vai acontecer. Mas mantém-te forte, Carlitos.
Forte. Mantém-te forte.
Carlitos, nunca percas esse brilho, mano.
Nunca o percas.
O que mais me fascina no maciço Trango
é erguer-se acima de uma crista de puro granito.
Fica entre dois glaciares. O Trango, a oeste,
e o Dunge, a leste.
Escalar lá é…
É incrível.
Sobretudo…
… na Torre Sem Nome.
Mas se estiver mau tempo…
Tentei há uns anos e…
E tivemos de descer.
Estávamos a 700 metros do cume.
- Que altura tem? - 6239 metros.
Joe Brown foi o primeiro a escalá-la, em 1976,
e tem nove vias até ao cume.
E a minha favorita é…
A eslovena.
Sim.
Fica na face sudoeste e tem as fendas mais limpas,
além de cordas fixas.
O recorde do Singleman mantém-se?
Do Singleman e do Feteris.
Eram dois. Australianos.
Fizeram um salto BASE desde 5955 metros.
O maior até hoje.
A maior queda vertical do mundo.
A TORRE SEM NOME
Desculpa, tens um minuto? Sou a Myriam Montañana.
- Prazer. - Dedicas-te a isto?
Não, sou bióloga.
Mas adoro escalada e inscrevi-me para esta palestra.
Tens um minuto?
- Bem… - Não sou uma fã, está bem?
É para algo sério.
Algo sério?
Uma expedição ao Trango. Para bater o recorde dos australianos.
Está tudo aqui.
Orçamentos, viagens, possíveis patrocinadores, equipamento…
E uma produtora de TV financiaria a expedição.
Querem fazer um documentário.
Querem uma equipa de cinco para haver mais interação.
Não há cinco homens que possam escalar a Torre e saltar.
Não têm de saltar todos. Eu não penso saltar.
Tu?
É o século XXI. Não serão só homens.
Não. Há um equívoco. Esta montanha não é brincadeira.
- Se querem um espetáculo… - Não. O que dizes? Nada disso.
Escalo desde os 17 anos.
Escalei na Sierra de Madrid, nos Picos, em Gredos…
Escalo vias de grau seis e sete.
- Que idade tens? - Fiz alpinismo nos Alpes.
A Torre Sem Nome é muito mais difícil.
Põe-me à prova.
SAÍDA DE EMERGÊNCIA
O dono é meu amigo. Empresta-me as chaves para treinar.
Há grau de dificuldade seis, sete…
E oito também.
Quantas escaladoras trouxeste aqui?
Nenhuma.
A sério.
O produtor é namorado da tua amiga, certo?
Sim.
Ele adora desporto.
Faz muitas parvoíces na TV e eu disse-lhe:
"Porque não fazes algo tipo National Geographic?"
- Olha só. - Sim.
- Sou muito irrequieta, sabes? - Sim.
Devias ter estudado outra coisa.
Deves passar oito horas por dia a olhar para um microscópio.
Talvez por isso escale.
Cuidado!
Tens um bom apoio à esquerda.
- Apoia-te lá. - Calma.
Calma.
Estás a ir para um 8a!
Eu sei.
Muito bem!
Se queres humilhar-me, precisas de uma montanha a sério.
Eu disse mesmo isso?
Não. Nem pensar. Não sou assim. Impossível.
Sim. Ela disse isso.
E eu pensei: "Se ela quer uma montanha a sério,
vamos dar-lha."
Se um helicóptero me deixar no cume, fico mais do que feliz.
A escalada é incrível, Chana. Vamos treinar muito.
- Ouve, Carlitos. - O quê?
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