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EM MEMÓRIA DE NORM MACDONALD 1959 - 2021
Isaac!
Isaac?
Olá, Isaac. Interrompo o teu trabalho?
Sim.
Deixa-me reformular.
Queremos verificar os sistemas da nave para a reparação.
Será uma paragem temporária.
Tens uma estimativa da duração?
Meia hora? Desculpa expulsar-te do teu laboratório.
Este espaço existe para o uso de todo o pessoal de ciências e engenharia.
Não, eu sei.
Nós achamos que tu vês isto como os teus aposentos.
Enfim, tentarei ser rápido. Não queres ir beber algo ou assim?
Eu não bebo.
Era uma piada.
O quê?
Não é esta a resposta correta a uma piada?
Não. Nem por isso.
Vou deixar-te trabalhar.
Posso fazer-vos companhia?
Claro.
Olá. Desculpa, aquilo foi um pouco rude.
Tenho reparado na tendência da tripulação na messe
de se mudarem quando me aproximo.
Sim, acho que ainda estão a habituar-se à ideia
de que ficaste a bordo.
Uma análise razoável.
Panquecas?
Eu não consumo comida.
Certo, claro.
Eu? Não me farto disto. A minha comida preferida desde criança.
Comê-las-ia sempre se pudesse. Mas só com manteiga. Sem xarope ou fruta.
As pessoas acham isso estranho.
Sentes-te mal quando as pessoas te evitam?
É fascinante observar o padrão comportamental,
mas a resposta emocional está além da minha capacidade.
Que pena.
De facto. Seria muito mais informativo.
Foste desativado durante a batalha, não foste?
Sim.
Decerto as pessoas contaram-te.
Processei toda a informação disponível da base de dados da nave,
incluindo um cronograma estratégico do evento.
Do evento?
Vou contar-te uma história na mesma.
Eu estava na USS Quimby .
A Quimby foi destruída.
Sim.
Na altura, eu estava com a oficial subalterna de astrometria.
Ela ajudava-me com uma reinicialização de emergência do computador de navegação
Era uma mulher fantástica.
Muito boa no que fazia.
E, por acaso, também era a minha melhor amiga.
Ela chamava-se Amanda.
Após a ordem para abandonar a nave, fomos para a cápsula de fuga mais próxima.
Apertámos os cintos, mas quando iniciámos o lançamento, não se passou nada.
- O que se passa? - Não sei!
O mecanismo de sequenciação está encravado!
Sabíamos que uma de nós teria de fazer o lançamento manual.
- Eu vou. - Não, Charly. Eu faço-o.
- Não! Eu quero ir! Não quero que… - Ouve!
Raios, Charly! Ouve! Não tem mal!
Não tem mal.
O olhar dela…
Não havia discussão.
Num segundo, ela estava lá. E no outro, desapareceu.
Juntamente com mais 300 pessoas.
Por tua causa.
Por isso, sabes, é mesmo uma pena que não possas sentir nada.
Porque mereces sentir toda a dor do Universo.
E se fosse a ti, ficaria afastado da messe.
As pessoas ficam enojadas quando te veem.
ASSASSINO
ORVILLE NOVOS HORIZONTES
OVELHAS ELÉTRICAS
Já recalibraram os scanners de navegação dianteiros?
Não, mas o capitão-tenente LaMarr disse que é a seguir.
Espero que tenha folgado uma noite nas últimas três semanas.
Gordon, porque não sais com ele esta noite? Embebeda-o.
Isso é uma ordem, comandante?
- É. - Gosto deste trabalho, comandante.
Keyali chama o capitão.
Diz.
Tu e a comandante Grayson podem ir ao laboratório de astrofísica?
Há algo que têm de ver.
Vamos a caminho.
Quem fez isto?
Não sabemos. Seja quem for, removeu o ADN.
É o habitual neste tipo de incidentes.
Quem esteve aqui nas últimas horas?
Que eu saiba, apenas o capitão-tenente LaMarr.
Acho que podemos excluir esse. Mais alguém?
Tudo estava desligado quando o John verificava os sistemas.
Não há forma de saber.
- E a tinta? - Verificámos os registos.
Quem a replicou usou um código de acesso de nível médio,
mas não há identificação.
Achamos que foi roubada.
- Talla, como o raio… - Não faço ideia,
mas reemiti novos códigos de acesso a quem tem autorização
e estou a investigar a origem da fuga.
Desculpe, capitão. A culpa é minha.
- Resolve isso, está bem? - Assim farei.
Mas há algo mais que lhe devia dizer, capitão.
O quê?
Há pouco, estive na messe e houve um incidente.
Como assim?
O Isaac entrou, sentou-se e toda a tripulação levantou-se e saiu.
A única que ficou foi a alferes Burke.
E ela disse-lhe coisas muito rudes.
Como por exemplo?
Que ele merecia sentir dor. E que devia ficar fora da messe.
Isaac, isto é verdade?
Sim, comandante.
É uma ocorrência frequente quando interajo com outros membros da tripulação.
Frequente? Há quanto tempo?
Desde que fui reintegrado.
Tens sido perseguido pela tripulação e não disseste nada?
Queria recordar-lhe, comandante,
que sou incapaz de ser magoado por essas interações hostis.
Aliás, proporcionou-me uma oportunidade
para observar uma faceta intrigante do comportamento humano
que não tinha encontrado previamente.
O ódio.
Correto, capitão.
Os dados comportamentais têm sido bastante abundantes.
Alferes Burke. Por favor, vá ao meu gabinete.
Capitão, percebo a ideia que isto dá,
mas juro pela minha honra que não escrevi aquilo.
Fazes ideia de quem foi?
Não, não estive no laboratório desde que a reparação começou.
Tem de acreditar em mim.
És uma oficial da União que nos deu a sua palavra. Acredito em ti.
Mas preocupa-me bastante o que a Talla me disse.
A questão do Isaac é obviamente complexa,
mas o que ela descreveu tem de ser abordado.
Permissão para falar à vontade, capitão?
- Concedida. - Tem um grande problema.
Continua.
Muita gente a bordo desta nave continua zangada por ter reintegrado o Isaac.
Zangadas a sério.
Tenho noção disso.
E quase todos na tripulação
conhecem alguém que morreu na batalha com os Kaylon.
E o número é geralmente maior. Amigos, colegas, familiares.
Ele sentar-se na ponte, todos os dias, como se nada tivesse acontecido
é um insulto a todos eles.
Achas que ele não devia ter sido reativado.
Não, acho que não.
Apesar de ter sido ele quem nos salvou?
Muito pouco e tarde demais.
Além disso, como sabe se ele não tem um programa oculto
à espera de ser acionado para controlar a nave?
As pessoas têm medo, capitão. A sua tripulação tem medo.
É heresia para um capitão admitir algo assim,
mas não sei se estás errada.
Tomei esta decisão
e ainda não sei se é a certa.
Mas independentemente da questão ética,
há uma razão mais pragmática para o Isaac continuar a bordo.
Mal combatemos os Kaylon sem perdermos toda a frota.
Na próxima, podemos não ter tanta sorte.
O Isaac é a única pessoa que nos poderá ajudar
a conceber uma defesa forte o suficiente para nos sentirmos seguros novamente.
E teremos de lhe agradecer por essa segurança? Valerá a pena?
Dispensada.
Acho melhor pensar num plano para melhorar o moral.
Como?
Não faço ideia.
Até organizo um concurso, mas temos de cortar o mal pela raiz.
Bem, vamos começar. Não deixem escapar nada.
E o coletor deflectível?
Sim, tudo.
Capitão-tenente, é novo.
Há um ano era novo. A atualização fá-lo parecer um corta-relva.
Como queira.
Bora, pessoal. Vamos removê-lo.
Capitão-tenente, desmontámos a matriz do scanner lateral.
O Yaphit pode ir lá e desativar os acoplamentos de energia quando quiser.
Isso é ótimo. Estão adiantados.
Todos querem saber quando vamos ver a nova Pterodon .
O Gordon vai trazê-la a qualquer momento.
Malloy chama Orville . Solicito permissão para acoplar.
Permissão concedida.
Muito agradecido.
Já viste bem aquilo?
Valeu mesmo a pena esperar.
Que nave tão linda. Estou apaixonada.
Espera para ver como se manobra. É como se fosse psíquica.
Sabe o próximo passo mesmo antes de o fazeres.
Sim, acredito.
Assim que o Isaac fizer a calibração, estaremos prontos para o teste.
Vais deixá-lo pôr aquelas mãos sujas nesta beldade?
É apenas o procedimento normal.
Charly, soube da tua conversa com o capitão.
Sim, está tudo bem. Adiante.
Sabes, não comentei isto com ninguém,
mas se te faz sentir melhor, estou contigo.
Como assim?
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